Uma produção nascida em Campo Grande vai representar o cinema independente sul-mato-grossense em território norte-americano. O curta-metragem "Olhos Fechados", dirigido por Roberto Leite e estrelado por Leandro Marques, foi selecionado para o Los Angeles Brazilian Film Festival (LABRFF) 2026, mostra dedicada à produção brasileira que neste ano reúne mais de 50 obras independentes do Brasil e de outros países. Diretor e ator embarcam no dia 1º de novembro para acompanhar o evento, programado entre os dias 2 e 6 de novembro.
Uma história sobre perda e reconstrução
O filme acompanha Guto, artista plástico pantaneiro que se muda para Campo Grande para realizar sua primeira exposição. A narrativa muda de direção quando o personagem perde a visão e precisa reconstruir sua relação com o mundo. Para dar consistência à história, a equipe de produção ouviu pessoas com deficiência visual durante a preparação, buscando trazer experiências reais para a construção de cenas e personagens - um cuidado que, segundo o diretor, ajudou a evitar que o filme tratasse a cegueira como incapacidade ou reduzisse Guto a uma posição de vítima.
Roberto Leite explica que o ponto de partida do projeto foi o interesse em entender como uma pessoa passa a perceber o mundo após perder a visão. Essa curiosidade se traduziu em escolhas de linguagem: o som ganhou papel central na narrativa, com atenção especial ao vento, aos passos e aos ruídos do ambiente, elementos que o personagem passa a captar de outra forma. "A ideia era fazer o público entrar um pouco nesse universo junto com o personagem", resumiu o diretor.
O desafio de interpretar sem estereótipos
Para Leandro Marques, dar vida a Guto representou um dos momentos mais exigentes de sua carreira. O ator recorreu a referências no cinema e na televisão e também conversou diretamente com pessoas com deficiência visual para preparar o papel. "Guto foi um dos grandes desafios na minha jornada como ator. Interpretar um deficiente visual não foi simples, mas construí-lo foi muito gratificante", afirmou.
Roberto Leite reforça que o personagem sente medo, revolta e sofrimento, mas mantém sonhos e desejos - a cegueira transforma sua trajetória, mas não define por completo quem ele é. A experiência também deixou marcas na equipe fora das câmeras. "Você começa querendo contar uma história e acaba também sendo transformado por ela", disse o diretor.
Um percurso consolidado em festivais
Antes de chegar a Los Angeles, "Olhos Fechados" já havia percorrido um caminho relevante no circuito de festivais, somando 17 seleções e nove prêmios. Entre os reconhecimentos estão o de Melhor Curta-Metragem no Paris New Cinema Film Awards, Melhor Filme Internacional no New Jersey Film Awards e no Atlanta Movie Awards, Melhor Filme no NYC Independent Film Festival e Melhor Ator no Boston Indie Film Festival. O filme também recebeu indicações em festivais como o New York Independent Cinema Awards e o Chicago Indie Film Awards, além de menções especiais em mostras como o Night of Shorts.
A chegada ao LABRFF, realizado desde 2008 e consolidado como ponto de encontro de cineastas e profissionais do audiovisual brasileiro em Los Angeles, marca mais uma etapa dessa trajetória. Para uma produção gestada no Pantanal e lapidada em Campo Grande, a passagem pelos Estados Unidos reforça o espaço crescente que narrativas regionais brasileiras vêm conquistando em circuitos internacionais de cinema independente.